sábado, 27 de outubro de 2007

Tijolos

Ponho-me numa construção.
Fundação, tijolos, cimento.
Tijolo em cima de tijolo.
É trabalho sofrido, suado.
Não desisto, tijolo e tijolo.
E as paredes ficam muros.
E nem me vem mais sol.
Vejo só tijolo, tijolos.
Quatro paredes intensas e eretas.
E o vento começa a acordar.
Esqueci-me da fundação.
Não, não há fundação.
Faltou-me cimento.
Não, não uso cimento.
Deparo-me com tijolos desamarrados.
Fiadas soltas, trêmulas.
O vento boceja, sopra, testa.
E tudo cai sobre mim.
Sobre um construtor frustrado.
Sobre um construtor perdido.



Alysson Kálleb

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Taça Vazia

Ébrio e perturbado vejo a porta abrir...
O maldito rosto angelical ressurge.
Ela no vestido branco manchado de prazer,
Ela com o longo cabelo negro atormentado,
Ela e só a alma lasciva ri.
E as luzes claras já não mais aparecem
E o vento leva todo o suave perfume passado
E o sangue atraiçoado borbulha, sofre.
O desejo exorbitante sufoca, mata, foge.
A última gota de vinho vai-se.
A taça esvaziou-se; mentiras, agora, bastam.



Alysson Kálleb

sábado, 29 de setembro de 2007

Insônia

Torneira pingando, ingando, ngando, gando, ando, ndo.
Vento soprando, oprando, prando, rando, ando, ndo.
Relógio batendo, atendo, tendo, endo, ndo.
Angústia vindo, indo, ndo.
Sono indo, ndo.


Alysson Kálleb

domingo, 16 de setembro de 2007

Numa Morfologia Perdida e Desvairada

Substantivos, privados de rumo, correm indigentes.
Verbos sem tempo ou modo, estáticos.
Artigos nada determinam, definidos indefinem e indefinidos definem.
Adjetivos, sempre fingidos, ofendem escrupulomente as palavras amedontradas.
Preposições desunem termos abraçados, expulsam a crase arredia.
Conjunções desconexam o mundo, deixam as orações aflitas e desnorteadas.


E num piscar de olhos... as regras desregram.
Tudo um fluxo descontínuo e perturbado.
Ou uma morfologia perdida e desvairada?



Alysson Kálleb

sábado, 8 de setembro de 2007

Enterrem-me de preto

Estou numa gelada mesa de mármore. Logo descobrirão que o veneno levou-me o suspiro. Enquanto me rasgam sem piedade, delicio-me com o perfume fúnebre daquele lugar. Tento abrir as pesadas pálpebras para assistir àquilo, mas o sangue já está frio.

Acredito que já descobriram a causa da morte, pois, agora, a agulha e a linha fecham os cortes no ventre. Jogam-me numa caixa gelada e muito fria, onde pressinto que há pessoas no estado em que me encontro.

Um silêncio profundo toma conta de tudo (e só as reticências podem descrevê-lo).
...


Algum tempo depois, tiram-me dali e tampam meus ouvidos e minhas narinas com algodão. Sei que a maldita e hipócrita cerimônia começará. Não quero velório, não quero choro. Apenas quero seguir esse novo caminho tortuoso. E um último desejo: enterrem-me de preto. É somente o que vejo.


Alysson Kálleb

sábado, 1 de setembro de 2007

Um Pouco de Alberto Caeiro

Aguns trechos de Poesia Completa de Albero Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa):

O Guardador de Rebanhos

V

O que eu penso do mundo?
Sei lá o que penso do mundo.
Se eu adoecesse pensaria nisso.

XIII

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
Eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

XXIV

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê
Nem ver quando se pensa.


O Pastor Amoroso

IV

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.


Poemas Inconjuntos

UM DIA de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem, cada um como é.

MEDO da morte?
Acordarei de outra maneira,
Talvez corpo, talvez continuidade, talvez renovado,
Mas acordarei.
Se até os átomos não dormem, por que hei-de ser eu só a dormir?

OLHO, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.

POUCO me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

NÃO SEI O QUE é conhecer-me. Não vejo para dentro.
Não acredito que eu exista por detrás de mim.


Fragmentos

Diferente de tudo, como tudo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Demais Inexistente

Sinto pouco existir.
Marco os pés na areia,
Mas logo o vento sopra
E as pegadas somem.

Esse vestígio de vida
Não existe mais.
Nunca existiu.
Apenas surgiu e desapareceu.


Alysson Kálleb

sábado, 25 de agosto de 2007

Morri Enforcado

Eu ainda segurava o revólver. Apenas alguns anos numa cadeia imunda. Aproximei-me do recém-defunto, joguei a arma em cima dele. Senti o peso do mundo sob meus ombros. Andava sem rumo naquele cômodo. Não deveria ter feito aquilo, ele era meu pai. Fiz com razão, ele tomou a minha moça dos cabelos de fogo. Queimou um sonho, um amor, um desejo. Trouxe-me a tortura.

Lúcia estava para chegar. Quando chegasse e visse o amante estirado no chão ensangüentado... Nunca mais me amaria. Aliás, ela nunca me amou. Eu que sempre comprei o amor dela. Irreal. As noites de volúpia vinham-me à mente. As lembranças tentavam afastar a breve conseqüência do meu ato. Ouvi passos no quintal. Era ela. Abriu a porta e se assustou ao ver aquela cena fúnebre. O rápido olhar dela procurou o autor do crime.

- Filho da puta, gritou ela. Como você pôde fazer isso?

- Sai daqui vagabunda!

Eu corri e peguei o revólver que estava em cima do morto. Apontei para ela:

- Vai embora.

- Assassino! Fique você sabendo que eu nunca fui só sua, sempre me deliciava com seu pai...

- Cala a boca!

Apertei o gatilho e uma bala atravessou o esbelto corpo daquela mulher de desejos. Mirei o revólver no meio da minha cara, mas não havia a terceira bala. Infelicidade. Não, não! Eu tinha feito o bastante. Sabia que ficaria sentado num chão úmido e purulento de uma cela por anos. O guarda que fazia plantão na praça devia ter ouvido os tiros e logo chegaria com aquelas algemas desconfortáveis. Meus punhos sangrariam. Não, não! O assoalho estava manchado com o sangue dos dois infames. Não, eu era o único infame.

Debrucei-me na mesa e pensei como seria minha vida a partir dali. Fugir? Viver escondido de todos? Não, não! Dormir num velho jornal em companhia de ratos? Também não. Levantei o rosto e vi uma corda enrolada perto de um banquinho. Minutos depois a corda estava amarrada numa viga que sustentava o telhado e o nó pronto. Pus o banquinho em baixo da corda feita, subi nele e do alto olhei os dois corpos inertes. Encaixei meu pescoço na corda e com um dos pés chutei o banco. 1, 2. Como o escuro pode ser tão errado...




Alysson Kálleb

sábado, 4 de agosto de 2007

Traça

Acordo assustado, mente cansada do descanso interrompido.
Procuro a fonte dos gritos ensurdecedores.
Percorro e não encontro.
Marco onde piso, escorre sangue de mim.
Meu corpo é só ruído.
Elas andam em meus vasos.
Vejo buracos sobre a superfície do futuro cadáver.
Não se contentaram em acabar com os meus livros, únicos que me entendiam.
Abrem-me o ventre, pedaços de órgãos ensangüentados vão ao chão.
Já não consigo respirar, tomaram meus pulmões.
Sinto que elas estão mastigando os alvéolos.
São muitas, agregam-se aos músculos e os deformam.
Sei que nada posso fazer, abro a porta para a morte sem desespero.
Cai-me um dos olhos, rompem-se os ligamentos dos dedos.
Deito-me e espero que elas cheguem ao lugar das páginas conservadas.
Não jorra mais sangue, elas têm sede e o bebem.
Marcham para lá, acabaram com as letras escritas e acabarão com as letras guardadas.
Chocam-se contra o crânio, o último obstáculo.
Deliciam-se na massa encefálica, são insaciáveis.
Não ouço mais o som infernal de milhares de salivas lançadas com prazer.
Restam fragmentos de carne minha que serão devorados.
De nada adiatou o esforço para preservar as ilustres palavras lidas.
Foram engolidas.
Agonizo lentamente...



Alysson Kálleb

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Leiam no LIF!:

"Embarcar, Voar e Morrer?"

"Escada de bandido brasileiro"

http://www.lifak.blogspot.com/