sábado, 29 de setembro de 2007

Insônia

Torneira pingando, ingando, ngando, gando, ando, ndo.
Vento soprando, oprando, prando, rando, ando, ndo.
Relógio batendo, atendo, tendo, endo, ndo.
Angústia vindo, indo, ndo.
Sono indo, ndo.


Alysson Kálleb

domingo, 16 de setembro de 2007

Numa Morfologia Perdida e Desvairada

Substantivos, privados de rumo, correm indigentes.
Verbos sem tempo ou modo, estáticos.
Artigos nada determinam, definidos indefinem e indefinidos definem.
Adjetivos, sempre fingidos, ofendem escrupulomente as palavras amedontradas.
Preposições desunem termos abraçados, expulsam a crase arredia.
Conjunções desconexam o mundo, deixam as orações aflitas e desnorteadas.


E num piscar de olhos... as regras desregram.
Tudo um fluxo descontínuo e perturbado.
Ou uma morfologia perdida e desvairada?



Alysson Kálleb

sábado, 8 de setembro de 2007

Enterrem-me de preto

Estou numa gelada mesa de mármore. Logo descobrirão que o veneno levou-me o suspiro. Enquanto me rasgam sem piedade, delicio-me com o perfume fúnebre daquele lugar. Tento abrir as pesadas pálpebras para assistir àquilo, mas o sangue já está frio.

Acredito que já descobriram a causa da morte, pois, agora, a agulha e a linha fecham os cortes no ventre. Jogam-me numa caixa gelada e muito fria, onde pressinto que há pessoas no estado em que me encontro.

Um silêncio profundo toma conta de tudo (e só as reticências podem descrevê-lo).
...


Algum tempo depois, tiram-me dali e tampam meus ouvidos e minhas narinas com algodão. Sei que a maldita e hipócrita cerimônia começará. Não quero velório, não quero choro. Apenas quero seguir esse novo caminho tortuoso. E um último desejo: enterrem-me de preto. É somente o que vejo.


Alysson Kálleb

sábado, 1 de setembro de 2007

Um Pouco de Alberto Caeiro

Aguns trechos de Poesia Completa de Albero Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa):

O Guardador de Rebanhos

V

O que eu penso do mundo?
Sei lá o que penso do mundo.
Se eu adoecesse pensaria nisso.

XIII

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
Eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

XXIV

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê
Nem ver quando se pensa.


O Pastor Amoroso

IV

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.


Poemas Inconjuntos

UM DIA de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem, cada um como é.

MEDO da morte?
Acordarei de outra maneira,
Talvez corpo, talvez continuidade, talvez renovado,
Mas acordarei.
Se até os átomos não dormem, por que hei-de ser eu só a dormir?

OLHO, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.

POUCO me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

NÃO SEI O QUE é conhecer-me. Não vejo para dentro.
Não acredito que eu exista por detrás de mim.


Fragmentos

Diferente de tudo, como tudo.