Eu ainda segurava o revólver. Apenas alguns anos numa cadeia imunda. Aproximei-me do recém-defunto, joguei a arma em cima dele. Senti o peso do mundo sob meus ombros. Andava sem rumo naquele cômodo. Não deveria ter feito aquilo, ele era meu pai. Fiz com razão, ele tomou a minha moça dos cabelos de fogo. Queimou um sonho, um amor, um desejo. Trouxe-me a tortura.
Lúcia estava para chegar. Quando chegasse e visse o amante estirado no chão ensangüentado... Nunca mais me amaria. Aliás, ela nunca me amou. Eu que sempre comprei o amor dela. Irreal. As noites de volúpia vinham-me à mente. As lembranças tentavam afastar a breve conseqüência do meu ato. Ouvi passos no quintal. Era ela. Abriu a porta e se assustou ao ver aquela cena fúnebre. O rápido olhar dela procurou o autor do crime.
- Filho da puta, gritou ela. Como você pôde fazer isso?
- Sai daqui vagabunda!
Eu corri e peguei o revólver que estava em cima do morto. Apontei para ela:
- Vai embora.
- Assassino! Fique você sabendo que eu nunca fui só sua, sempre me deliciava com seu pai...
- Cala a boca!
Apertei o gatilho e uma bala atravessou o esbelto corpo daquela mulher de desejos. Mirei o revólver no meio da minha cara, mas não havia a terceira bala. Infelicidade. Não, não! Eu tinha feito o bastante. Sabia que ficaria sentado num chão úmido e purulento de uma cela por anos. O guarda que fazia plantão na praça devia ter ouvido os tiros e logo chegaria com aquelas algemas desconfortáveis. Meus punhos sangrariam. Não, não! O assoalho estava manchado com o sangue dos dois infames. Não, eu era o único infame.
Debrucei-me na mesa e pensei como seria minha vida a partir dali. Fugir? Viver escondido de todos? Não, não! Dormir num velho jornal em companhia de ratos? Também não. Levantei o rosto e vi uma corda enrolada perto de um banquinho. Minutos depois a corda estava amarrada numa viga que sustentava o telhado e o nó pronto. Pus o banquinho em baixo da corda feita, subi nele e do alto olhei os dois corpos inertes. Encaixei meu pescoço na corda e com um dos pés chutei o banco. 1, 2. Como o escuro pode ser tão errado...
Alysson Kálleb