segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Demais Inexistente

Sinto pouco existir.
Marco os pés na areia,
Mas logo o vento sopra
E as pegadas somem.

Esse vestígio de vida
Não existe mais.
Nunca existiu.
Apenas surgiu e desapareceu.


Alysson Kálleb

sábado, 25 de agosto de 2007

Morri Enforcado

Eu ainda segurava o revólver. Apenas alguns anos numa cadeia imunda. Aproximei-me do recém-defunto, joguei a arma em cima dele. Senti o peso do mundo sob meus ombros. Andava sem rumo naquele cômodo. Não deveria ter feito aquilo, ele era meu pai. Fiz com razão, ele tomou a minha moça dos cabelos de fogo. Queimou um sonho, um amor, um desejo. Trouxe-me a tortura.

Lúcia estava para chegar. Quando chegasse e visse o amante estirado no chão ensangüentado... Nunca mais me amaria. Aliás, ela nunca me amou. Eu que sempre comprei o amor dela. Irreal. As noites de volúpia vinham-me à mente. As lembranças tentavam afastar a breve conseqüência do meu ato. Ouvi passos no quintal. Era ela. Abriu a porta e se assustou ao ver aquela cena fúnebre. O rápido olhar dela procurou o autor do crime.

- Filho da puta, gritou ela. Como você pôde fazer isso?

- Sai daqui vagabunda!

Eu corri e peguei o revólver que estava em cima do morto. Apontei para ela:

- Vai embora.

- Assassino! Fique você sabendo que eu nunca fui só sua, sempre me deliciava com seu pai...

- Cala a boca!

Apertei o gatilho e uma bala atravessou o esbelto corpo daquela mulher de desejos. Mirei o revólver no meio da minha cara, mas não havia a terceira bala. Infelicidade. Não, não! Eu tinha feito o bastante. Sabia que ficaria sentado num chão úmido e purulento de uma cela por anos. O guarda que fazia plantão na praça devia ter ouvido os tiros e logo chegaria com aquelas algemas desconfortáveis. Meus punhos sangrariam. Não, não! O assoalho estava manchado com o sangue dos dois infames. Não, eu era o único infame.

Debrucei-me na mesa e pensei como seria minha vida a partir dali. Fugir? Viver escondido de todos? Não, não! Dormir num velho jornal em companhia de ratos? Também não. Levantei o rosto e vi uma corda enrolada perto de um banquinho. Minutos depois a corda estava amarrada numa viga que sustentava o telhado e o nó pronto. Pus o banquinho em baixo da corda feita, subi nele e do alto olhei os dois corpos inertes. Encaixei meu pescoço na corda e com um dos pés chutei o banco. 1, 2. Como o escuro pode ser tão errado...




Alysson Kálleb

sábado, 4 de agosto de 2007

Traça

Acordo assustado, mente cansada do descanso interrompido.
Procuro a fonte dos gritos ensurdecedores.
Percorro e não encontro.
Marco onde piso, escorre sangue de mim.
Meu corpo é só ruído.
Elas andam em meus vasos.
Vejo buracos sobre a superfície do futuro cadáver.
Não se contentaram em acabar com os meus livros, únicos que me entendiam.
Abrem-me o ventre, pedaços de órgãos ensangüentados vão ao chão.
Já não consigo respirar, tomaram meus pulmões.
Sinto que elas estão mastigando os alvéolos.
São muitas, agregam-se aos músculos e os deformam.
Sei que nada posso fazer, abro a porta para a morte sem desespero.
Cai-me um dos olhos, rompem-se os ligamentos dos dedos.
Deito-me e espero que elas cheguem ao lugar das páginas conservadas.
Não jorra mais sangue, elas têm sede e o bebem.
Marcham para lá, acabaram com as letras escritas e acabarão com as letras guardadas.
Chocam-se contra o crânio, o último obstáculo.
Deliciam-se na massa encefálica, são insaciáveis.
Não ouço mais o som infernal de milhares de salivas lançadas com prazer.
Restam fragmentos de carne minha que serão devorados.
De nada adiatou o esforço para preservar as ilustres palavras lidas.
Foram engolidas.
Agonizo lentamente...



Alysson Kálleb