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O último dia do anonão é o último dia do tempo.Outros dias virãoe novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.Beijarás bocas, rasgarás papéis,farás viagens e tantas celebraçõesde aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,que o tempo ficará repleto e não ouvirás clamor,os irreparáveis uivosdo lobo, na solidão.O último dia do anonão é o último dia de tudo.Fica sempre uma franja de vidaonde se sentam dois homens.Um homem e seu contrário,uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,um olho e seu brilho,uma voz e seu eco,e quem sabe até se Deus...Recebe com simplicidade este presente do acaso.Mereceste viver mais um ano.Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.Teu pai morreu, teu avô também.Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,e de copo na mãoesperas amanhecer.O recurso de se embriagar.O recurso da dança e do grito,o recurso da bola colorida,o recurso de Kant e da poesia,todos eles... e nenhum resolve.Surge a manhã de um ano novo.As coisas estão limpas, ordenadas.O corpo gasto renova-se em espuma.Todos os sentidos alerta funcionam.A boca está comendo vida.A boca está entupida de vida.A vida escorre da boca,lambuza as mãos, a calçada.A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.[Carlos Drummond de Andrade]
XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezesHá duas árvores iguais, uma ao lado da outra.Penso e escrevo como as flores têm corMas com menos perfeição no meu modo de exprimir-mePorque me falta a simplicidade divinaDe ser todo só o meu exterior.Olho e comovo-me,Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinadoE a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
"Um barulho. É o cachorro magro, que agita as orelhas dormindo, e dorme alertado, com o focinho cúbico encostado no chão."
Vamos destrancar as portas do hospício e as jaulas do zoológico
Tirar das costas esse peso
No corre-corre de doidos e animais
Ninguém será capaz de apontar quem tava preso
Vamos destrancar as grades do convento e as celas do presídio
Tirar das costas esse peso
No empurra-empurra de freiras e marginais
Ninguém será capaz de apontar quem tava preso
É uma história. É um livro de 365 páginas. É sofrimento. Como a moral tentou perseguir. A falsa moral. Uma perseguição frustrada. Mas isso é apenas narrado em 364 páginas. Sobra-me uma. Somente uma página. É nessa que encontro sentimentos verdadeiros: tristezas, alegrias, amor, críticas, elogios, decepções. Risos, festas, filmes, estudos, conselhos, brigas, saídas. São cenas fingidas e cenas vividas. Há também uma foto anexada, não revelada. Revela-se na mente de quem lê. Ali encontro alguns parágrafos escritos à tinta. Um parágrafo para a descrição de cada personagem. São personagens mais que esféricos com conflitos entrelaçados. Impossível entendê-los, pois foram vividos. Permanecem marcados. É um enredo inapagável.
Penso que não vale guardar esse livro. Então rasgo todas as primeiras 364 páginas e as jogo muito longe. Longe onde o vento possa levá-las. Longe onde o vento possa engoli-las. Resta-me a página de número 365. Aquela página. É uma página eterna. Leio-a novamente e depois a guardo no fundo da gaveta do criado-mudo. Será aquela velha folha perdida e amarelada que tempos depois encontrarei e lerei. Tenho certeza que lágrimas acompanhar-me-ão nessa leitura saudosista.
Amigos,
Foram perdas e desacertos para uma vitória concreta. Essa vitória pode ainda não estar concretizada, porém em breve estará. Sucesso fincado!
Vejo-a cair.
Vejo-a secar.
Piso.
Tão prazeroso senti-la morta.
Piso.
Ver uma vida finita.Alysson Kálleb
Ponho-me numa construção.
Fundação, tijolos, cimento.
Tijolo em cima de tijolo.
É trabalho sofrido, suado.
Não desisto, tijolo e tijolo.
E as paredes ficam muros.
E nem me vem mais sol.
Vejo só tijolo, tijolos.
Quatro paredes intensas e eretas.
E o vento começa a acordar.
Esqueci-me da fundação.
Não, não há fundação.
Faltou-me cimento.
Não, não uso cimento.
Deparo-me com tijolos desamarrados.
Fiadas soltas, trêmulas.
O vento boceja, sopra, testa.
E tudo cai sobre mim.
Sobre um construtor frustrado.
Sobre um construtor perdido.Alysson Kálleb
Ébrio e perturbado vejo a porta abrir...
O maldito rosto angelical ressurge.
Ela no vestido branco manchado de prazer,
Ela com o longo cabelo negro atormentado,
Ela e só a alma lasciva ri.
E as luzes claras já não mais aparecem
E o vento leva todo o suave perfume passado
E o sangue atraiçoado borbulha, sofre.
O desejo exorbitante sufoca, mata, foge.
A última gota de vinho vai-se.
A taça esvaziou-se; mentiras, agora, bastam.
Torneira pingando, ingando, ngando, gando, ando, ndo.Vento soprando, oprando, prando, rando, ando, ndo.Relógio batendo, atendo, tendo, endo, ndo.Angústia vindo, indo, ndo.Sono indo, ndo.
Substantivos, privados de rumo, correm indigentes.
Verbos sem tempo ou modo, estáticos.
Artigos nada determinam, definidos indefinem e indefinidos definem.
Adjetivos, sempre fingidos, ofendem escrupulomente as palavras amedontradas.
Preposições desunem termos abraçados, expulsam a crase arredia.
Conjunções desconexam o mundo, deixam as orações aflitas e desnorteadas.E num piscar de olhos... as regras desregram.
Tudo um fluxo descontínuo e perturbado.
Ou uma morfologia perdida e desvairada?