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Quando respiro, sei que algo me falta.É um vazio, um oco profundo.É vida.Alysson Kálleb
Os ventos não lutam,Apenas sopram num suave correr.Posso respirar,Expiro minhas ficções.Posso ver a mim mesmo,Pois daqui nada enxergo.É alto.Não sei onde estou,Mas logo cairei.
O último dia do anonão é o último dia do tempo.Outros dias virãoe novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.Beijarás bocas, rasgarás papéis,farás viagens e tantas celebraçõesde aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,que o tempo ficará repleto e não ouvirás clamor,os irreparáveis uivosdo lobo, na solidão.O último dia do anonão é o último dia de tudo.Fica sempre uma franja de vidaonde se sentam dois homens.Um homem e seu contrário,uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,um olho e seu brilho,uma voz e seu eco,e quem sabe até se Deus...Recebe com simplicidade este presente do acaso.Mereceste viver mais um ano.Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.Teu pai morreu, teu avô também.Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,e de copo na mãoesperas amanhecer.O recurso de se embriagar.O recurso da dança e do grito,o recurso da bola colorida,o recurso de Kant e da poesia,todos eles... e nenhum resolve.Surge a manhã de um ano novo.As coisas estão limpas, ordenadas.O corpo gasto renova-se em espuma.Todos os sentidos alerta funcionam.A boca está comendo vida.A boca está entupida de vida.A vida escorre da boca,lambuza as mãos, a calçada.A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.[Carlos Drummond de Andrade]
XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezesHá duas árvores iguais, uma ao lado da outra.Penso e escrevo como as flores têm corMas com menos perfeição no meu modo de exprimir-mePorque me falta a simplicidade divinaDe ser todo só o meu exterior.Olho e comovo-me,Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinadoE a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
"Um barulho. É o cachorro magro, que agita as orelhas dormindo, e dorme alertado, com o focinho cúbico encostado no chão."
Vamos destrancar as portas do hospício e as jaulas do zoológico
Tirar das costas esse peso
No corre-corre de doidos e animais
Ninguém será capaz de apontar quem tava preso
Vamos destrancar as grades do convento e as celas do presídio
Tirar das costas esse peso
No empurra-empurra de freiras e marginais
Ninguém será capaz de apontar quem tava preso
É uma história. É um livro de 365 páginas. É sofrimento. Como a moral tentou perseguir. A falsa moral. Uma perseguição frustrada. Mas isso é apenas narrado em 364 páginas. Sobra-me uma. Somente uma página. É nessa que encontro sentimentos verdadeiros: tristezas, alegrias, amor, críticas, elogios, decepções. Risos, festas, filmes, estudos, conselhos, brigas, saídas. São cenas fingidas e cenas vividas. Há também uma foto anexada, não revelada. Revela-se na mente de quem lê. Ali encontro alguns parágrafos escritos à tinta. Um parágrafo para a descrição de cada personagem. São personagens mais que esféricos com conflitos entrelaçados. Impossível entendê-los, pois foram vividos. Permanecem marcados. É um enredo inapagável.
Penso que não vale guardar esse livro. Então rasgo todas as primeiras 364 páginas e as jogo muito longe. Longe onde o vento possa levá-las. Longe onde o vento possa engoli-las. Resta-me a página de número 365. Aquela página. É uma página eterna. Leio-a novamente e depois a guardo no fundo da gaveta do criado-mudo. Será aquela velha folha perdida e amarelada que tempos depois encontrarei e lerei. Tenho certeza que lágrimas acompanhar-me-ão nessa leitura saudosista.
Amigos,
Foram perdas e desacertos para uma vitória concreta. Essa vitória pode ainda não estar concretizada, porém em breve estará. Sucesso fincado!
Vejo-a cair.
Vejo-a secar.
Piso.
Tão prazeroso senti-la morta.
Piso.
Ver uma vida finita.Alysson Kálleb
Ponho-me numa construção.
Fundação, tijolos, cimento.
Tijolo em cima de tijolo.
É trabalho sofrido, suado.
Não desisto, tijolo e tijolo.
E as paredes ficam muros.
E nem me vem mais sol.
Vejo só tijolo, tijolos.
Quatro paredes intensas e eretas.
E o vento começa a acordar.
Esqueci-me da fundação.
Não, não há fundação.
Faltou-me cimento.
Não, não uso cimento.
Deparo-me com tijolos desamarrados.
Fiadas soltas, trêmulas.
O vento boceja, sopra, testa.
E tudo cai sobre mim.
Sobre um construtor frustrado.
Sobre um construtor perdido.Alysson Kálleb
Ébrio e perturbado vejo a porta abrir...
O maldito rosto angelical ressurge.
Ela no vestido branco manchado de prazer,
Ela com o longo cabelo negro atormentado,
Ela e só a alma lasciva ri.
E as luzes claras já não mais aparecem
E o vento leva todo o suave perfume passado
E o sangue atraiçoado borbulha, sofre.
O desejo exorbitante sufoca, mata, foge.
A última gota de vinho vai-se.
A taça esvaziou-se; mentiras, agora, bastam.