sábado, 8 de setembro de 2007

Enterrem-me de preto

Estou numa gelada mesa de mármore. Logo descobrirão que o veneno levou-me o suspiro. Enquanto me rasgam sem piedade, delicio-me com o perfume fúnebre daquele lugar. Tento abrir as pesadas pálpebras para assistir àquilo, mas o sangue já está frio.

Acredito que já descobriram a causa da morte, pois, agora, a agulha e a linha fecham os cortes no ventre. Jogam-me numa caixa gelada e muito fria, onde pressinto que há pessoas no estado em que me encontro.

Um silêncio profundo toma conta de tudo (e só as reticências podem descrevê-lo).
...


Algum tempo depois, tiram-me dali e tampam meus ouvidos e minhas narinas com algodão. Sei que a maldita e hipócrita cerimônia começará. Não quero velório, não quero choro. Apenas quero seguir esse novo caminho tortuoso. E um último desejo: enterrem-me de preto. É somente o que vejo.


Alysson Kálleb

2 comentários:

Henrique Rochelle disse...

tem muitas coisas que só as reticencias descrevem, mas faz sentido... se é a única coisa que voce vê, vc realmente deveria ser enterrado de preto. eu acho que preciso morrer afogado pelo menos uma vez... nao aguento mais tanto céu azul...

e pra que? "pra que tanto céu? pra que tanto mar, pra que? de que serve essa onda que quebra e o vento da tarde? de que serve a tarde, inútil paisagem?"

gostei mto!
xD

Karen Freire disse...

aind anão tinha lido esse seu texto de morte...
apesar dos pesares, vc evolui a cada palavra, a cada escrita, a cada texto...
Como sempre digo - como a Bea sempre zoa - Ainda vou pedir Alysson Káleb nas livrarias...indicá-lo pros meus filhos, amigos e afins...
E claro!Vc estará na dedicatória do livro que um dia escreverei. E espero não ler seu livro póstumo - pois seria mto triste ler um livro fúnebre (like always) de um amigo-irmão querido, que já tenha ido...ido queimar dez minutinhos, hahaa!

AMO VC!!!!!!!!!