segunda-feira, 16 de junho de 2008

Sem Título

E ainda tenho os pulmões impregnados de ti.

[Alysson Kálleb]

Sem Título

Meus sentimentos não transbordam além da podre tez.
Vivem perdidos nos entupidos e inflamados poros de meu corpo.

[Alysson Kálleb]

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O Cortiço

"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas."

[Aluísio Azevedo]

O Piano

"A voz que você ouve não é aquela que sai da minha boca, mas da minha alma."

[Ada]

sábado, 26 de janeiro de 2008

Quando Fui Fred Astaire

Começou a faltar a gravidade naquele dia
E o que não se amarrava,
Voava até se perder
Declarado estado de calamidade
E o que se temia
Ninguém explicava
E eu ficava sem entender

Ouvi dizer que tinha a ver
Com a grande mudança no universo
Uma alteração na dimensão de um outro espaço qualquer
Coisa muito difícil pra macaco sabido compreender
E eu que sempre sonhei em voar
Só queria sobreviver
Mas como não sabia o que ia acontecer
Aproveitava e dançava no teto
Feito Fred Astaire

E o mundo fazia sentido
De pernas pro ar
E o mundo visto ao contrário
Parecia no lugar

Começou a faltar gravidade naquele dia...


[Jay Vaquer]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Sem Título

Quando respiro, sei que algo me falta.
É um vazio, um oco profundo.
É vida.


Alysson Kálleb

sábado, 12 de janeiro de 2008

Tão Alto

Os ventos não lutam,
Apenas sopram num suave correr.
Posso respirar,
Expiro minhas ficções.
Posso ver a mim mesmo,
Pois daqui nada enxergo.
É alto.

Não sei onde estou,
Mas logo cairei.


[Alysson Kálleb]

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Passagem do Ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do ano
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um ano novo.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Guardador de Rebanhos

XIV

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...


[Alberto Caeiro]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sarapalha

"Um barulho. É o cachorro magro, que agita as orelhas dormindo, e dorme alertado, com o focinho cúbico encostado no chão."

[João Guimarães Rosa]