skip to main |
skip to sidebar
Meus sentimentos não transbordam além da podre tez.Vivem perdidos nos entupidos e inflamados poros de meu corpo.[Alysson Kálleb]
"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas."
"A voz que você ouve não é aquela que sai da minha boca, mas da minha alma."[Ada]
Começou a faltar a gravidade naquele diaE o que não se amarrava,Voava até se perderDeclarado estado de calamidadeE o que se temiaNinguém explicavaE eu ficava sem entenderOuvi dizer que tinha a verCom a grande mudança no universoUma alteração na dimensão de um outro espaço qualquerCoisa muito difícil pra macaco sabido compreenderE eu que sempre sonhei em voarSó queria sobreviverMas como não sabia o que ia acontecerAproveitava e dançava no tetoFeito Fred AstaireE o mundo fazia sentidoDe pernas pro arE o mundo visto ao contrárioParecia no lugarComeçou a faltar gravidade naquele dia...[Jay Vaquer]
Quando respiro, sei que algo me falta.É um vazio, um oco profundo.É vida.Alysson Kálleb
Os ventos não lutam,Apenas sopram num suave correr.Posso respirar,Expiro minhas ficções.Posso ver a mim mesmo,Pois daqui nada enxergo.É alto.Não sei onde estou,Mas logo cairei.
O último dia do anonão é o último dia do tempo.Outros dias virãoe novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.Beijarás bocas, rasgarás papéis,farás viagens e tantas celebraçõesde aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,que o tempo ficará repleto e não ouvirás clamor,os irreparáveis uivosdo lobo, na solidão.O último dia do anonão é o último dia de tudo.Fica sempre uma franja de vidaonde se sentam dois homens.Um homem e seu contrário,uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,um olho e seu brilho,uma voz e seu eco,e quem sabe até se Deus...Recebe com simplicidade este presente do acaso.Mereceste viver mais um ano.Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.Teu pai morreu, teu avô também.Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,e de copo na mãoesperas amanhecer.O recurso de se embriagar.O recurso da dança e do grito,o recurso da bola colorida,o recurso de Kant e da poesia,todos eles... e nenhum resolve.Surge a manhã de um ano novo.As coisas estão limpas, ordenadas.O corpo gasto renova-se em espuma.Todos os sentidos alerta funcionam.A boca está comendo vida.A boca está entupida de vida.A vida escorre da boca,lambuza as mãos, a calçada.A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.[Carlos Drummond de Andrade]
XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezesHá duas árvores iguais, uma ao lado da outra.Penso e escrevo como as flores têm corMas com menos perfeição no meu modo de exprimir-mePorque me falta a simplicidade divinaDe ser todo só o meu exterior.Olho e comovo-me,Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinadoE a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
"Um barulho. É o cachorro magro, que agita as orelhas dormindo, e dorme alertado, com o focinho cúbico encostado no chão."
Vamos destrancar as portas do hospício e as jaulas do zoológico
Tirar das costas esse peso
No corre-corre de doidos e animais
Ninguém será capaz de apontar quem tava preso
Vamos destrancar as grades do convento e as celas do presídio
Tirar das costas esse peso
No empurra-empurra de freiras e marginais
Ninguém será capaz de apontar quem tava preso